• Revista Pernambuco #33

Revista Pernambuco #33

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Sinopse

Como a corda retesada de um violino


Entre as incontáveis peculiaridades do Brasil, uma é do “reino” da literatura. Há

uma curiosa e oscilante divisão dos gêneros narrativos. Para alguns, Angústia

é o primeiro romance de Graciliano Ramos, e as suas histórias anteriores são

tidas como novelas. Pôs tudo no mesmo saco Octavio Tarquínio de Sousa,

quando, ao escrever sobre esse livro, na época do seu lançamento, disse:

“Como em Caetés e S. Bernardo, seus romances anteriores, o sr. Graciliano

Ramos é em Angústia grande inimigo do supérfluo, do derramado. Este escritor

é por excelência antirretórico. Sua linguagem é de uma extrema coesão, seca,

concisa, despojada de qualquer enfeite, evitando as imagens, como quem

andando evita os buracos. Por vezes a frase é tão tensa, tão estirada, que

lembra a corda retesada de um violino”.

A entrega dos originais desse livro coincide com a prisão do autor. Nesta

edição, há um ensaio inédito do escritor José Almino que esclarece vários

aspectos do contexto da época, bem como as Memórias do cárcere.

Noventa anos depois de publicada, Angústia mantém aquele vigor, que é rigor,

tão característico de Graciliano. Talvez aumentássemos um pouco mais de

exatidão na aspereza e na tensão se trocássemos, no seu caso, a metáfora

empregada por Tarquínio de Souza: no lugar do violino, uma rabeca ou algum

rabāb.

Há muitas lições a aprender com Graciliano Ramos. A primeira é, de uma certa

maneira, um regresso, por unir exigência estética à ética, tanto espelhando-se

mutuamente, quanto ligando-se como unha e carne. Daí que num dos

relatórios de sua gestão como prefeito de Palmeira dos Índios (Alagoas), tenha

escrito: “Procurei sempre os caminhos mais curtos. Nas estradas que se

abriram só há curvas onde as retas foram inteiramente impossíveis”. Em

tempos de perversões ideológicas e quase nada que lembre ideias, ideais ou

idealismo, permanecem cheias de viço a verdade e a limpeza da sua escrita e

do seu exemplo. Quanto aos aspectos mais profundos do seu romance, ou da

sua novela, como talvez fosse melhor simplificar, vale o dito por Kierkegaard, o

maior mestre da angústia:

“Que vantagem representaria uma verdade que se erguesse, nua, fria e

indiferente ao meu reconhecimento, capaz de provocar mais um

estremecimento de angústia do que um abandono confiante? É verdade que

ainda admito o ‘imperativo do conhecimento’, em virtude do qual poderia

exercer uma ação sobre os homens, mas ‘é preciso que eu o absorva

vitalmente’; eis aqui o essencial para mim”.

Características

  • Edição: Setembro/2026
  • ISBN:

Etiquetas: Revista Pernambuco, Graciliano Ramos