• Revista Continente #284

Revista Continente #284

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Sinopse

UM FENÔMENO POPULAR TÃO DO BRASIL


Não há culturas superiores nem inferiores. Todas são legítimas. Isso a

antropologia já admite há bastante tempo. Com a acentuação do identitarismo,

relativismo e do politicamente correto isso também se generalizou essa ideia

na estética. Poucos ousariam hoje em dia usar a dicotomia bom e mau

aplicado ao gosto. Uma expressão popular como “existe gosto, desgosto, mau

gosto e agonia” caiu tanto em desuso quanto o termo cafona. Este último,

embora difuso, antecede a classificação do que hoje se diz “brega”. O

emprego, aliás, da palavra “classificação” é preciso, pois houve um tempo em

que o gosto era mais uma questão de “classe”.

Políticos em cidades como o Recife, em Pernambuco, e Belém, no Pará,

viram uma oportunidade de ouro (ou de ouropel, segundo o ponto de vista) em

exaltar o brega. Como símbolo do seu patrimônio imaterial tão relevante quanto

o frevo e o carimbó. Se a cordialidade é uma característica muito brasileira, não

surpreende que um gênero musical marcado pelo sentimental e outros ismos

seja adorado pelas multidões, literalmente.

A generalização no uso do termo “brega” no Brasil não completou ainda

meio século, mas sempre esteve latente. É um dos muitos desdobramentos da

chamada indústria cultural, das massas. Exemplos de brega, sob outros nomes

e jeitos, existem em vários países. Cantores como Roy Black e Müslüm Gürses

podem ser de todo desconhecidos no Brasil. Tanto quanto Reginaldo Rossi e

Amado Batista não são populares na Alemanha e na Turquia. Mas fazem parte

da mesma família espiritual. Se chamamos um tipo de música brega e outro de

Schaleger e Arabesk importa apenas em sutilezas. Têm em comum o fato de

que são músicas ‘de coração para coração’.

Em outras ocasiões a revista Continente pôs em destaque o brega.

Gênero e estilo em pleno triunfo, não mais apenas pela aprovação popular,

mas de quem tem o poder para sua oficialização nos âmbitos e símbolos

regionais. Se a escassez de pudor é um dos marcos deste tempo tão fecundo

em ênfases, está bem longe de envergonhar-se quem aprova e gosta do brega.

Agora a escala é de orgulho. Quem tentar defini-lo vai logo perceber que é

híbrido, escorregadio e nutrido de diversos elementos e fusões. Em todos eles,

porém, fala mais alto o sentimento, despudorado e livre. Com tanto mais

sucesso quanto o “reino da quantidade” que é o capitalismo sob muitas faces,

corpos e almas quiser. Cada tempo e espaço escolhe um “astro” para aglutinar

e representar a “riqueza” do brega. Mesmo quando tinha outros nomes. Uma

síntese atual o povão encontrou na cantora Priscilla Senna. Nessas consoantes

dobradas tem-se o melhor do que o país louva com orgulho, e tem a identidade

na paixão, e na “saudade”. Musa, cantora das multidões, ela é (um fenômeno)

do povo, do povão.

Características

  • Edição: Junho/ Julho/ Agosto 2026
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