Revista Pernambuco #25
Sinopse
O PATRIMÔNIO FAMILIAR DE UM ESCRITOR, LITERALMENTE: O QUE O PAI DOCUMENTOU
Seria o tempo atual o mais pobre da literatura em termos de imaginação? A pergunta é tão difusa quanto as possíveis tentativas de resposta. Cabe não simplificar. Deixando de lado os puritanos das boas causas, ainda há escritores de verdade – ou seja, aqueles para quem aVerdade interessa menos do que o prazer de inventar verossimilhanças. Os que não querem fazer justiça com as próprias mãos senão à linguagem. No entanto, para o prazer do texto tanto faz se algo existiu, de fato, ou foiinventado. Estamos quase próximos da História Íntima dos Goncourt, o “roman vrai”.
Quem olhar para os títulos lançados nos últimos anos vai deparar-se com tantos romances baseados no próprio umbigo do autor ou da autora que talvez o melhor da autoficção ainda esteja por vir (ou vindo já). No sentido mais literal: da autoficção, i.e., da ficção de auto. Ou, como no filme já antigo: Se meu fusca falasse.
Os carros falam cada vez mais, e os documentos também. Há mais imaginação neles do que pode sonhar a vã filosofia dos leitores de Shakespeare. Tanto que o gênero híbrido da ‘novela sem ficção’ continua a render bons frutos. O escritor Cristóvão Tezza presenteia os leitores com um deles. O seu livro mais recentemente lançado exemplifica um mergulho nos arquivos familiares. Especificamente os do pai. Um tipo de patrimônio documental raro hoje em dia de encontrar. Se pai remete a patrimônio, e vice-versa, ambas as palavras nos levam a Philip Roth: Patrimônio – uma história real. A dedicatória é esta: “Para a nossa família, os vivos e os mortos.” Num certo momento, ele nos diz: “Satisfazer as necessidades de mamãe, caso tivesse sido a cônjuge sobrevivente, pareceria algo natural e fácil de gerenciar: ela era o repositório do passado da família, a historiadora de nossa infância e juventude.”
Provavelmente sem querer, o pai de Cristóvão Tezza terminou sendo algo assim. Historiador de sua infância e juventude, “repositório do passado da família”. Ao menos aquele passado parcial que faz os banquetes dos historiadores e parte da glória dos escritores e dos jornalistas, além dos que gostam de memórias e de confessar (ou imaginar o) que viveram.
Características
- Edição: Janeiro/2025
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