Revista Pernambuco #27
Sinopse
A História é também fruto da História e das diversas histórias contadas ao longo do tempo. “Mudam-se os tempos e as vontades”, como disse Camões, e a forma de dizer e interpretar, acrescentemos. Dentro do relato, há os fatos e as lendas. Os humanos, que se reinventam tanto quanto a própria cultura e as circunstâncias permitem, movem-se.
Chica da Silva é uma daquelas personagens do Brasil em que os nós da história e da lenda se imbricam. Um historiador experiente sabe cortar o seu nó górdio e separar o trigo mesclado ao joio documental. A historiadora Mary del Priore trata de fazer isso num pequeno e precioso livro, e o faz com estilo e estesia. O que aumenta a qualidade e o interesse de sua narrativa.
Por mais que o moralismo e o puritanismo de muitos, hoje em dia, busquem simplificar a história, ela continua complexa. Com muitas cores e não poucos cenários em que predomina o claro-escuro. A natureza e a cultura insistem em não ser apenas o preto e branco, o sim e não, o bem e o mal. Se assim fosse a realidade, facilitaria muito a tarefa dos cientistas, historiadores e antropólogos.
Por tudo isso, e mais, não há uma só Chica da Silva. O médico e historiador Sóter Ramos Couto a definiu como “paradoxal fenômeno”, que transformou a Arraial do Tijuco (atual Diamantina, em Minas Gerais). Diz que ela “trocou o girau da senzala por um leito de damasco num palácio no Tijuco, governando-o qual nova rainha de Sabá, senhora absoluta num arraial de um governo absoluto”.
A que mostra Mary del Priore não exclui nada disso, muito pelo contrário. Consegue mais. Estimula que cada leitor encontre “sua” Chica da Silva. Sendo particular, de cada um, múltipla. A “verdadeira” Chica da Silva não pode ser trazida pela História, pois a “verdade” está na vida vivida, nunca na contada, e a História, ao contrário do que disse um famoso historiador, não é a mestra da vida, nem, acrescentamos, poderá jamais, amestrá-la, tão somente mostrá-la, parcial e incompleta, como sempre costuma ser.
A História é também fruto da História e das diversas histórias contadas ao longo do tempo. “Mudam-se os tempos e as vontades”, como disse Camões, e a forma de dizer e interpretar, acrescentemos. Dentro do relato, há os fatos e as lendas. Os humanos, que se reinventam tanto quanto a própria cultura e as circunstâncias permitem, movem-se.
Chica da Silva é uma daquelas personagens do Brasil em que os nós da história e da lenda se imbricam. Um historiador experiente sabe cortar o seu nó górdio e separar o trigo mesclado ao joio documental. A historiadora Mary del Priore trata de fazer isso num pequeno e precioso livro, e o faz com estilo e estesia. O que aumenta a qualidade e o interesse de sua narrativa.
Por mais que o moralismo e o puritanismo de muitos, hoje em dia, busquem simplificar a história, ela continua complexa. Com muitas cores e não poucos cenários em que predomina o claro-escuro. A natureza e a cultura insistem em não ser apenas o preto e branco, o sim e não, o bem e o mal. Se assim fosse a realidade, facilitaria muito a tarefa dos cientistas, historiadores e antropólogos.
Por tudo isso, e mais, não há uma só Chica da Silva. O médico e historiador Sóter Ramos Couto a definiu como “paradoxal fenômeno”, que transformou a Arraial do Tijuco (atual Diamantina, em Minas Gerais). Diz que ela “trocou o girau da senzala por um leito de damasco num palácio no Tijuco, governando-o qual nova rainha de Sabá, senhora absoluta num arraial de um governo absoluto”.
A que mostra Mary del Priore não exclui nada disso, muito pelo contrário. Consegue mais. Estimula que cada leitor encontre “sua” Chica da Silva. Sendo particular, de cada um, múltipla. A “verdadeira” Chica da Silva não pode ser trazida pela História, pois a “verdade” está na vida vivida, nunca na contada, e a História, ao contrário do que disse um famoso historiador, não é a mestra da vida, nem, acrescentamos, poderá jamais, amestrá-la, tão somente mostrá-la, parcial e incompleta, como sempre costuma ser.

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