Revista Pernambuco #29
Sinopse
ESCRITORES E LEITORES DIANTE DO “ESTÁDIO DO ESPELHO”
Esta é a segunda edição monográfica da Pernambuco. Agora, centrada em
Clarice Lispector, cujo desejo da literatura como seu mundo começou no
Recife.
Dizia Borges: “Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o
número dos homens”. Talvez uma relação assim refletida exista no leitor com
os livros (vide o aforismo de Lichtenberg). Apenas cabe acrescentar que, se o
livro serve de espelho, também o autor.
Há escritores em que a "cópula" e o espelhamento buscados pelo leitor
encontram-se mais do que em outros: Clarice Lispector está entre eles. Eus
outros, mesmo quando não procuram outros eus, encontram.
Não surpreende que a grande expansão do interesse pela leitura de Clarice
Lispector e sua apropriação pelo seu leitor coincida com as décadas mais
recentes. Em que mais se valorizam a identidade e as reivindicações
identitárias. Lacan, ao tratar do “conhecimento paranoico”, se refere a
“compreender o estádio do espelho como uma identificação no sentido pleno
que a análise dá a este termo: a saber, transformação produzida no sujeito
quando assume uma imagem, cuja predestinação a este efeito de fase está
suficientemente indicada pelo uso, na teoria, do termo antigo imago.”
Por sua parte, nos diz Jauss, ao tratar do poder de evocação de um novo texto
no leitor, que há um “horizonte de expectativas”.
Clarice Lispector pode ser um exemplo curioso na literatura daquele “método
paranoico-crítico” autoproposto pelo pintor Salvador Dalí. Embora ela, em certo
sentido, fosse o seu oposto: anti-histriônica. Ou com um histrionismo sutil, que
se expressa na palavra que entroniza silêncios e se exterioriza na outridade, na
escrita.
Embora de único tema, este número tenta apresentar enfoques variados. Mas,
ao fim e ao cabo, traz apenas uma das possíveis Clarices. Uma Clarice
‘mirabilante’, que refletisse as maravilhas e os espelhos que os leitores buscam
em si através dela. Não surpreende que alguns deles inventem falsos textos
seus e se ocupem de disseminá-los na Internet. Os que não fazem isso, mas a
admiram intensamente, também nela se encontram. Por essa curiosa operação
que é ad-mirar. Como se Lispector fosse o seu espectro e espéculo, a
Sheherazade cujas histórias sejam continuadas pelo rei, que as ouve.
Características
- Edição: Maio 2026
- ISBN:
Etiquetas: Clarice Lispector

