Revista Pernambuco #30
Sinopse
UMA DOSE VIOLENTA DE QUALQUER COISA
Esta é uma edição com vários poetas. Desde o "esquecer para lembrar" de Maria do Carmo Ferreira a um poeta inédito em livro. Do grego Agrafiotis ao alemão Rilke, dos italianos Pasolini e Dante ao estadunidense Ginsberg.
Antes dos anos 1960, Allen Ginsberg era, no Brasil, pouco mais do que um nome citado em uma ou outra nota dos periódicos. Em 1956, quando sai publicado o seu Howl and others poems, que sintetiza toda uma geração, os brasileiros estavam mais interessados noutras bossas. As novidades no país da antropofagia eram o Concretismo e as experimentações de João Guimarães Rosa com a linguagem. Foram necessários quase 30 anos para que aquele Howl se convertesse num Uivo brasileiro, na habilidosa tradução de Claudio Willer.
Se pensássemos em Ginsberg a partir daquela técnica de Arcimboldo, poderíamos ver um holograma do seu rosto atravessado por alguns poetas que integram a mesma “família espiritual”. Dos apaixonados pela vida, até a exacerbação dos sentidos. Não só Verlaine e Rimbaud, Villon e Whitman, Leminski e Glauco Mattoso. Vates e videntes, poetas e profetas, nos quais as vozes e os gestos são as grandes armas da alma. Cães, lobos, coiotes e chacais.
Há exatos 60 anos, escreveu Gladstone Vieira Belo, no Diário da Manhã (Recife, 11 de julho de 1966):
“Allen Ginsberg é o mais representativo poeta dos beatniks americanos - jovens inconformados com a maneira de vida que lhes proporciona a 'sociedade tecnológica', ou seja, a máquina sobrepondo-se às forças do homem, à sua capacidade inventiva e destruindo-lhe o próprio gosto pela escolha".
Em tempos de domínio quase absoluto das máquinas e maquinações, e com promessas de acentuar-se, palavras assim soam proféticas. Os profetas sempre se dirigem mais ao presente que ao futuro. Como os poetas verdadeiros que emocionam, sejam quais forem os tempos e espaços. Quando, aproximando-se o fim de tarde, o dia parecer perdido, talvez soem como de uma prece ou de um salmo profano estes versos: “Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus,/ arrastando-se pelas ruas do bairro negro, de madrugada, em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”.
A Academia Sueca, ao premiar com o Nobel o troubadour pós-moderno Bob Dylan (amigo de Ginsberg), talvez o tenha dado a toda aquela geração. Em pleno centenário de nascimento de Ginsberg (3 de junho), a revista Pernambuco publica um artigo especial sobre sua trajetória.
Características
- Edição: Junho/ 2026
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